Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo
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Gregório Duvivier é feliz ao debochar da cobrança por ‘imparcialidade’

Power Point exibido no 'Greg News' e inspirado no ppv do procurador Deltan Dalagnon: Oderbrecht substitui Lula no centro do esquema de corrupção ,

Gregório Duvivier estreou na noite desta sexta, 5, seu programa semanal na HBO, debochando das suspeitas de que ele não seria imparcial na arte de produzir uma edição semanal sobre o noticiário. “Quando eu falei que ia fazer esse programa, as pessoas ficaram me perguntando: ‘Gregório, mas como você vai conseguir ser imparcial, tendo recebido tanto dinheiro de Cuba pra espalhar o comunismo?’ Então, desde que o Fidel morreu, esse acordo caiu e eu não preciso mais, graças a Deus, ficar defendendo um regime falido que matou tanta gente – e ainda mata.”

“Vocês sabem que não existe nada imparcial. Vocês acham que a GloboNews, de um lado, é imparcial? E, de outro lado, vocês acham que a… É, não pensei em nenhuma emissora de esquerda, desculpe”, concluiu.

“O que eu vou tentar é bater em todos igualmente, até naquele que roubou meu coração, naquele que tirou 40 milhões da pobreza e é injustamente perseguido pela Polícia Federal”, riu. De uma honestidade intelectual praticamente inexistente hoje em dia, ainda mais na indústria do entretenimento e da informação, Gregório admitiu que não será imparcial, “mas não vou mentir – a não ser que a piada seja muito boa”.

Não foi, no entanto, nem a direita nem a esquerda quem mais apanhou na edição de estreia, e sim as empresas privadas, ali tratadas quase como o verdadeiro pólo antagônico da política de maneira geral. Em um discurso bem sustentado por fatos, Gregório destruiu a ideia de que todo o mal da corrupção nasce na estatização e de que o setor privado seria a salvação para todos os males. Basta dizer que PT e PSDB, os dois lados que representam a polarização ideológica, se valeram da mesma fonte de renda para multiplicar seus domínios (a Oderbrecht). Esta mesma Oderbrecht, entretanto, será muito mais poupada que qualquer político, já que eles correm o risco de se tornarem inelegíveis e a empresa poderá continuar a participar de licitações e grandes obras públicas, quando a poeira baixar. Afinal, lembrou Greg, “a delação é premiada”, e “não com produtos Jequiti”.

O humorista é honesto ao dizer que baterá em todos os lados, e assim o fez quando mencionou que a benfeitoria de Lula, via Minha Casa Minha Vida favoreceu, evidentemente, as construtoras. Buscou dados desde Getúlio Vargas e fez do lema de JK, 50 anos em 5, uma das boas piadas do programa: Juscelino, o homem que quis fazer uma capital, mesmo já havendo uma,  seria hoje um adolescente viciado em Minecraft, que passaria o dia trancado no quarto construindo blocos e gritando para a mãe: ‘quero fazer a capital!’

A quem acredita que a Oderbrecht não é regra, e sim exceção, Greg propôs que pensem na Friboi, a grife dos frigoríficos que já foi acusada de grilagem e trabalho escravo. Ou na Vale, responsável pelo maior desastre ecológico na história do Brasil.

Ao falar de greves, mencionou o discurso do marido de Ana Hickann, com exibição de um trecho de seu depoimento, e debochou do subprefeito de Pinheiros, que gravou um vídeo dizendo que respeita greve, desde que não seja dia de trabalho. “Isso é como o Papa dizer que vai deixar de fazer sexo, caso cesse a guerra na Síria”.

Outro tema bem explorado no programa foi a Educação, com foco no projeto da Escola Sem Partido e destaque para a defesa do “intelectual” Alexandre Frota. Faustão foi relembrado dando bronca na reforma educacional proposta pelo governo Temer, em pleno “Domingão”, no ano passado. “Aí, Faustão, seu petralha!”, brincou Greg, “de vermelho, falando mal do Temer”, riu.

Duvivier tem estofo, tem repertório, tem conhecimento. A única ressalva é que, a julgar pelo primeiro episódio, a proposta serviu mais para instigar o pensamento do que para provocar gargalhadas no espectador. Gargalhadas, propriamente dito, não parece ser, aliás, o objetivo desse formato de “Last Week Tonight”, como acontece na HBO dos Estados Unidos. A piada será mais engraçada para quem se identifica com os rumos de cada prosa, mas, por menor que seja a fatia reservada exclusivamente ao riso, nesse bolo, nada é mais eficiente na arte de provocar reflexão do que o humor como ponto de partida da narrativa, e isso está lá, bem contemplado.

Outro ponto muito a favor do programa é que ele não se preocupa em alfinetar ou bater em quem lhe parece merecedor do pugilato verbal. Fernando Gabeira é citado como alguém que não nasceu tosco, apenas “se tornou” tosco. A imprensa é reduzida àquela instituição que noticia que “Caetano estacionou o carro no Leblon”, menção à corrida da grande mídia por cliques na internet. E a Igreja Universal ganha uma referência antiga, mas inesquecível, como aquela que “chutou a santa”.

Nesses dias em que todo mundo quer ficar bem com todo mundo, na melhor tradução de que “não se sabe o dia de amanhã”, é louvável ver um programa que não se acanha em dar nomes aos bois e destruir quem lhe parece necessário.

 

Para quem não viu nem tem assinatura da HBO, amanhã pela manhã um compacto de 10 minutos deve circular pelo YouTube.

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Cristina Padiglione

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