Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo
Minha novela

‘Os Dias Eram Assim’ evidencia que ditadura no Brasil é pouco retratada pela TV

Caio Blat é Túlio,que atira uma bomba caseira na construtora de Arnaldo

Diante da notícia de que a Globo retrataria um período da ditadura em “Os Dias Eram Assim”, nova novela ou série das onze, de Alessandra Poggi e Ângela Chaves, muita gente associou a produção a “Anos Rebeldes”, de 1992, criada por Gilberto Braga.

Repare no buraco evidenciado por esse paralelo: faz tanto tempo e é tão raro encontrar na televisão produções de ficção que tenham a ditadura militar como primeiro plano (ainda que os autores gostem de falar em “pano de fundo”, o contexto da época é fator essencial à narrativa do romance, nos dois casos), que as pessoas já associam uma história à outra, apenas pelo fato de as duas retratarem uma mesma época e regime de governo.

Imagine se a gente fosse traçar paralelos entre todos os filmes sobre o Holocausto produzidos ano após ano. Isso não existe, no contexto nazista, porque as produções são muitas e cada uma se encarrega de um foco, de uma história, de uma narrativa, entre tantas e tantas possibilidades existentes em um cenário de guerra, de modo que essa profusão cinematográfica sobre o tema se tornou perfeitamente respeitada em suas diversas abordagens.

No caso da ditadura brasileira, há muito mais produções na literatura e no cinema do que na TV. E acontece que a Globo, sobretudo, principal produtora de audiovisual do País, apoiou abertamente o regime militar, beneficiou-se dele e até chegou a se retratar, anunciando que o “apoio ao golpe de 64 foi “um erro”. O mea-culpa veio só em 2013. Vamos lembrar que já com a abertura lenta e gradual praticamente concluída, em janeiro de 1984, a Globo ainda resistia em noticiar pelo nome de Diretas-Já o forte movimento que ganhou adesão popular. E até 92, abordar repressão e censura, item do qual a própria emissora foi vítima, em suas produções, era obra de alguns poucos corajosos na área de teledramaturgia. Hoje, dado o pedido de desculpas e o reconhecimento do erro, não é que a direção passe a encomendar obras sobre o assunto, mas é até com bons olhos que a casa vê surgir um argumento sobre a época, desde que a história seja boa. Falar de ditadura, com o passado que lhe cabe, cai bem à Globo: gera a impressão de que a emissora nada mais teme na abordagem da coisa,

Chega a ser espantoso ver como tantos e tantos espectadores, no afã do eterno “O povo não é bobo / Abaixo a Rede Globo”, hino proveniente da subserviência da Globo aos militares de 64 a 85, sempre duvidam da honestidade da emissora em reproduzir a época como ela foi. Parecem até o crítico representado por Marcelo Adnet no “Tá no Ar”. Não que a Globo não mereça ser foco do olhar crítico e ressabiado, até pelo passado que a condena, mas convêm aí algumas ressalvas. A ficção sempre tratou do assunto com mais propriedade que o jornalismo. Dias Gomes abria fronteiras inimagináveis com seu Odorico Paraguaçu, em “O Bem Amado”, em um tempo em que a dramaturgia avançava rumo à reflexão em proporções infinitamente mais arrojadas que o “Jornal Nacional”, na mesma tela da Globo.

E nem tudo se realizou sob o pretexto jurídico de que “esta é uma obra de ficção e qualquer semelhança com a realidade será considerada pura coincidência”, como alegam os créditos finais. É bom citar que o mesmo Dias Gomes viu quatro capítulos de seu “O Pagador de Promessas” decepados em uma minissérie de 8 episódios que deveria ter 12. A questão, ali, não era nem ditadura, mas a luta dos sem-terra contra a igreja e pela reforma agrária. No livro “Anos Rebeldes: Os Bastidores da criação de uma minissérie” (Ed Rocco 2010), Gilberto Braga narra a tensão que enfrentou durante a realização e exibição da série, justamente em função do que havia se passado recentemente com Dias, vítima não mais da censura externa que adiou por dez anos a produção de “Roque Santeiro”, por exemplo, mas sim da repressão interna,  do dono da casa. Eis o que Braga relata:

“Em 1988, algum tempo antes de eu começar a conceber Anos Rebeldes, havia certa tensão dentro da Globo por conta dos cortes na minissérie ‘O pagador de Promessas’, de Dias Gomes. A adaptação da linguagem do teatro para a TV foi feita pelo próprio autor. No enredo havia questões como a luta dos sem-terra contra a Igreja e a reforma agrária. Logo depois do primeiro capítulo, Roberto Marinho ligou para o Boni e mandou tirar a minissérie do ar. Boni argumentou que isso não ficaria bem. A minissérie, que teria cerca de 12 capítulos, foi ao ar com oito. Quatro foram cortados.

Enquanto eu escrevia Anos Rebeldes, principalmente do quarto capítulo em diante, morria de medo que a mesma coisa acontecesse comigo: por isso o que poderia ter sido um prazer acabou sendo um trabalho sempre muito tenso. Tinha medo de escrever e, depois, que as cenas fossem cortadas por alguém. Cláudio Mello e Souza foi a pessoa que Roberto Marinho encarregou de ler algumas partes do roteiro. Seu parecer dizia que, do décimo ao décimo quarto capítulo, estávamos carregando demais nas tintas políticas. O fato é que, a partir do final do oitavo capítulo, entramos em dezembro de 1968, justamente quando foi decretado o AI-5. A partir dali, a situação geral do Brasil mudou muito. Era natural que  a série ficasse mais pesada: precisávamos acompanhar a realidade. Até então, as coisas não eram tão sinistras. Cláudio deu um sinal amarelo e Boni conversou comigo. Pediu que reescrevêssemos.

Mudamos algumas coisas, e a imprensa chegou a noticiar muito esse fato. Frei Betto escreveu um artigo horrível, criticando toda a série por conta dos capítulos reescritos, mesmo antes de serem levados ao ar. Ele nem sabia o que tínhamos modificado e como havia ficado, mas mesmo assim fez críticas ridículas. Nunca se retratou. Tenho desprezo por ele.

Quando esses capítulos foram ao ar, mais exatamente na primeira vez em que João Alfredo (Cássio Gabus) é espancado, seu rosto aparece todo ensanguentado. A partir daí, muita gente se desarmou. Lembro bem de uma nota do jornal, na coluna do Zózimo, que dizia assim: “E Frei Betto, hein? Queimou a língua”. E queimou mesmo.

Em relação às restrições de Cláudio Mello e Souza, negociei com Boni com habilidade, felizmente. Sim, nós reescrevemos algumas partes, mas é bem possível que, na época, eu tenha divulgado que reescrevi mais capítulos do que realmente reescrevi. Ainda que estivesse escrito ‘novo’ na borda da sequência de capítulos que iam do dez ao 15, não reescrevemos isso tudo. Devemos ter reescrito algo como dois capítulos e dito que reescrevemos cinco. É preciso saber lidar com o poder.

De toda forma, e Sérgio (Marques, coautor) concorda comigo, o que mudamos não prejudicou o programa em nada, até melhorou. As cenas no chamado aparelho, a base do grupo clandestino de Sandra (Deborah Evelyn) e João Alfredo eram um pouco maçantes – tudo muito escuro, muito fechado. Os diálogos pareciam saídos do manual de um guerrilheiro socialista e foram reduzidos. Ficou bem melhor assim. A personagem de Deborah Evelyn é uma mulher muito seca, uma fanática, e teve algumas cenas descartadas.

Mesmo com pequenas mudanças, não só enquanto escrevia, mas no período em que a minissérie era veiculada, fiquei muito tenso. Depois que três ou quatro episódios foram ao ar, eu continuava preocupado, não mais por medo de cortarem cenas ou capítulos, mas porque a imprensa estava atrás de mim, querendo saber se houve censura interna. Eu não queria falar desse assunto. Meu grande medo era que cortassem a morte da Heloísa, eu não ia por lenha na fogueira.”

Braga conta em seguida que o saudoso “Jornal do Brasil” publicou à época uma matéria com os originais de uma cena em que Maria Lúcia (Malu Mader) e João Alfredo são parados em uma blitz, com o carro abarrotado de panfletos de protesto, e são levados ao muro para revista policial. No original, o policial separava as pernas de Maria Lúcia com um cassetete e, na descrição dele, “o levava quase à altura da calcinha, insinuando abuso sexual”. “Cortamos essa parte, com medo de que achassem forte demais. Isso foi uma pena, mas o produtor é a Globo, o autor precisa ter uma certa humildade”, defende no livro.

 

Por tudo isso, vale celebrar a boa história e realização de “Os Dias Eram Assim”, obra que já se destaca na minha programação, pela comoção causada e pela costura quase imperceptível entre ficção e contexto real.

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