Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo
Minha série

Para aquecer ‘Os Dias Eram Assim’, Globo disponibiliza ‘Anos Rebeldes’ na internet

Anos Rebeldes-Betty Lago, Claudia Abreu (Helô, na fase pré-revolucionária) e José Wilker

Tantas foram as comparações entre “Anos Rebeldes”, série de 1992, e “Os Dias Eram Assim”, atual novela das onze (ou super série, como prefere a Globo), que a emissora resolveu trazer de volta, sem risco de falhas para a memória, a própria história de Gilberto Braga. O enredo que conta a história de amor entre o idealista João Alfredo (Cássio Gabus Mendes) e a individualista Maria Lucia (Malu Mader) durante os anos de chumbo no Brasil estará no Globo Play a partir de amanhã, com seus 20 episódios disponíveis só para assinantes da plataforma.

Inspirada nos livros “1968 – O ano que não terminou”, de Zuenir Ventura, e “Os Carbonários”, de Alfredo Sirkis, “Anos Rebeldes” reforçou, na época em que foi ao ar, o entusiasmo dos caras-pintadas que foram às ruas pedir “Fora Collor” ao presidente Fernando Collor de Mello.

Diferentemente de “Os Dias…”, “Anos Rebeldes” é completamente movida por militantes de esquerda que se opunham ao regime militar. O herói de Cássio Gabus imprimia panfletos revolucionários, pegava em armas e participava de sequestros de embaixadores para reivindicar a libertação de seus companheiros. É um personagem a anos luz de distância do de Renato Góes, o Renato de “os Dias”, que embora seja contra o regime militar, vive sua pacata vida de médico, sem qualquer envolvimento com militância política. Mesmo seu irmão, Gustavo, personagem de Gabriel Leone, acaba preso por estar na hora errada no local errado, ao lado de um amigo que, sem planejamento, só por impulso, joga uma bomba no prédio da construtora do vilão Antonio Calloni, o Arnaldo da série.

Anos Rebeldes” também é ambientada no Rio de Janeiro entre 1964, quando ocorreu o golpe militar, e 1979, quando foi decretada a Lei da Anistia, e segue a trajetória de um grupo de colegas do tradicional Colégio Pedro II e mostra como a política governamental influenciou seus destinos. “Os Dias” irá até as Diretas Já, período de 1984/85.

Heloísa, personagem de Claudia Abreu, filha de pai rico, nada tinha de Alice, papel de Sophie Charlotte. Ao contrário da mocinha atual, Helô saía de casa, tosava a cabeleira e partia para a luta armada. Helô era filha de Betty Lago e José Wilker. Ainda no elenco, estão Pedro Cardoso, o Galeno, uma espécie de alter ego do autor da série, Marcelo Serrado, Bete Mendes, Carlos Gregório, Carlos Zara, Cininha de Paula, Deborah Evelyn, Emiliano Queiroz, Enrique Diaz, Eva Wilma, Francisco Milani, Gianfrancesco Guarnieri, Herson Capri, Kadu Moliterno, Marcello Novaes, Malu Galli, Maria Padilha, Mila Moreira, Odilon Wagner e, de novo presente na produção atual, Susana Vieira.

De Gilberto Braga, escrita por Gilberto Braga e Sérgio Marques, sob direção geral de Dennis Carvalho, “Anos Rebeldes” foi acompanhada de perto pelo fundador da Globo, Roberto Marinho, que encomendou ao autor um certo esvaziamento do teor político, conforme ele mesmo relatou no livro “Anos Rebeldes – Os Bastidores da Criação de Uma Minissérie” (ed.Rocco/2010).

Como primeira produção que tinha a repressão como foco principal na TV, “Anos Rebeldes” não chegou a mostrar resultados sádicos de tortura, como “Os Dias” tem feito. A cena da morte de Helô, sob o comando do agente interpretado pelo grande Francisco Milani (um comunista, na vida real), compensa essa lacuna. Como abordagem sobre o que significou a vida de quem brigou pelo fim da repressão e pela volta da democracia, não tenha dúvida: “Anos Rebeldes” é muito mais útil ao conhecimento da época do que “Os Dias Eram Assim”.

Para quem quer ter uma ideia mais completa do assunto, jovens sem ideia do que aconteceu no país, vale assistir às séries, mas, principalmente, procurar por livros que contem essa História, com letra maiúscula, de modo nada romanceado. O próprio “1968”, de Zuenir, é uma boa pedida para começar.

Curta nossa página no Facebook e siga-nos no Twitter

Cristina Padiglione

Cristina Padiglione