Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo
O que tem de bom?

‘Vade Retro’ debocha do que parece certinho

Celeste (Monica Iozzi) e Abel (Tony Ramos). Foto de Ramón Vasconcelos/Divulgação

O texto de Fernanda Young e Alexandre Machado é bom, mas fica ainda melhor se ouvido pelas vozes de Tony Ramos, Mônica Iozzi, Cecília Homem de Mello e Juliano Cazarré, em edição que respeita pausas e faz bom uso da trilha sonora como apoio de marcação.

Ele, o demônio: Abel Zebu.
Ela, quase anjo: Celeste.

É o diabo fazendo a certinha de gato e sapato.

Um Tony Ramos fechado, aparentemente taciturno, de olhos e cavanhaque bem marcados por make up, faz Abel Zebu. Astro de palestras motivacionais, ele vai seduzir a ingênua, beirando a tonta, advogada Celeste, personagem de Mônica Iozzi. Apoiados pelos diálogos da dupla de autores de “Os Normais”, os dois dão show. Celeste ficou famosa quando criancinha, por ter sido beijada pelo papa João Paulo II em visita ao Brasil, e cresceu com essa referência, em boa parte graças ao fanatismo religioso da mãe, Leda, em ótima interpretação de Cecília Homem de Mello (responsável pelo casting da produtora O2, que assina a coprodução da série, Cecília é artigo de luxo no set, e já é conhecida pela plateia da Globo desde a série “Som & Fúria”, que infelizmente teve temporada única).

A historinha de Celeste com João de Deus é o que leva Abel Zebu até ela, graças a uma informação do desorientado namorado dela, Cazarré.

“Vade Retro” tem um pé em Gotham City, o que o público há de notar pelo cenário e iluminação dispensadas ao diabo, um demônio bem vestido e, claro muito seguro de si, em contraste com uma mocinha vítima da patetice pela qual a mãe dela conspira a favor. Celeste se derrete pelo diabo, que é oficialmente par de Maria Luísa Mendonça, aqui bem amparada pela caracterização dark. No primeiro episódio, ela surge amarrada no porta-malas do carro dele, mas, quando se desvencilha, não se mostra nada vítima, ao contrário, demonstra estar à altura dele na arte de cultivar o nefasto.

Bom programa para as noites de quinta, “Vade Retro” tem direção de Mauro Mendonça Filho, alguém capaz de quebrar tabus no set. Foi dele  o comando da novela que exibiu o primeiro beijo gay masculino do horário nobre da Globo (“Amor à Vida”) e a direção de “Verdades Secretas”, que abordou abertamente o consumo e a dependência de drogas e o suicídio. Até por isso, é com certa leveza que ele vê no roteiro frases que poderiam causar controvérsia entre o público menos disposto a rir de si, como quando Celeste diz, sem rodeios: “Eu estou cagando para o Oriente Médio”.

Coisa de que só os bons são capazes, o riso bobo e solto parece ser obra fácil para dona Iozzi, levando em conta que ela repetiu a cena mais de duas ou três vezes e ainda assim, alcançou aquele efeito de quem não contém a bobeira da risada sufocada. Zebu se mantém impassível no seu pedestal. Não se irrita, não perde o tom (pelo menos no primeiro capítulo), mas sai estourando balões de criancinhas na rua, como uma criança travessa.

Que o diabo nos carregue, amém.

“Vade Retro”, todas as quintas, logo após “A Força do Querer”, ou por volta das 22h15, na Globo. Todos os episódios estarão disponíveis na GloboPlay com uma semana de antecedência, para assinantes.

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Cristina Padiglione

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