Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo

‘O abraço que esperei lá, estou recebendo agora’: Galisteu sobre série da HBO Max

Ayrton Senna e Adriane Galisteu: doc traz depoimentos preciosos para recontar o contexto do romance / Reprodução

Adriane Galisteu disse a frase acima ao revelar que tem sido abraçada e parabenizada nas ruas em função da série “Meu Ayrton”. A Warner anunciou que o título, obra do diretor João Wainer com foco na história vivida por ela, foi a série documental brasileira mais vista dos últimos três anos no catálogo da HBO Max. Não era para menos.

Adriane não sucumbiu ao papel de figurante que a família de Ayrton Senna tentou lhe imputar após a morte do piloto, naquele maio de 1994, em Ímola, mantendo-a longe do caixão e fora do grupo que recebeu do cerimonial do funeral o adesivo “F”. Era a letrinha que identificava quem era da “Família” ou próxima ao clã, e com o qual Xuxa Meneghel, namorada de outros tempos, foi agraciada na ocasião.

A série resgata esse dado, com imagens do velório na Assembleia Legislativa de São Paulo, e valiosos depoimentos da ex-assessora de Senna, Betise Assumpção, e de Luíza Eugênia Konder, viúva do empresário Antônio Carlos de Almeida Braga, o “Braga”, amigo de Senna e seu anfitrião em Portugal, onde Adriane morou com Ayrton.

Como bem lembra Luíza, bastaria muito pouco para que a família Senna não se expusesse em tamanha deselegância. Na condução do corpo para o túmulo, Xuxa também foi convidada a subir na van que levava o clã, enquanto Galisteu seguia a pé pelo mesmo percurso.

Em 30 anos, Galisteu fez seu próprio nome, a ponto de muita gente hoje sequer ter conhecimento sobre o episódio que lhe deu fama mundial. Foi ela, afinal, quem mais conviveu com Ayrton Senna em seu último ano e meio de vida, período em que muitos atestaram um sujeito mais feliz e mais leve no bom proveito da vida pessoal.

A série pode até parecer uma vingança barata a “Senna”, superprodução da Gullane para a Netflix, que teve apoio da família de Senna e, em especial, da irmã, Viviane. Ficcional, a produção da Netflix se esmera nos recursos tecnológicos dispostos a mostrar o universo das pistas, mas tropeça na importância que Galisteu teve para Senna.

Atribuir a “Meu Ayrton” o papel de revanche a “Senna”, no entanto, seria reduzir – de novo – o valor da história da loira com o piloto. Ainda que a Netflix não tivesse desembolsado um centavo dos R$ 250 milhões gastos na sua produção, “Meu Ayrton” teria os aplausos que vem encontrando mundo afora, inclusive por trazer informações que muita gente gostaria de ter conhecido bem antes.

“Essa história é minha”, pontua Adriane na série documental. Precisa, essa é uma frase chave para o espectador se permitir mergulhar no enredo e nas revelações que ainda permaneciam inéditas após mais de três décadas.

Eu mesma ouvi de amigos próximos à família, lá em 94, que Leonardo Senna, irmão de Ayrton, teria preparado um dossiê de Galisteu para alertar o piloto sobre a suposta má índole da então namorada. Dizia-se que Leonardo havia grampeado o telefone da casa onde o casal morava, em Portugal, e então descoberto que ela o traía.

E não é que Luíza fala abertamente sobre essa e outras futricas? Conta ela que Leonardo chegou a mostrar o resultado da investigação a Ayrton e que o tricampeão mundial riu do episódio. A tal prova de que a moça não lhe era fiel era só um telefonema de um ex-namorado perguntando se Ayrton seria melhor de cama que ele, idiotice à qual ela, do alto de seus 19 anos de vida, reagiu com uma risada.

“Vou te dar umas palmadas”, teria dito Ayrton a Adriane, segundo Luíza, em tom de deboche. E isso foi tudo.

Em função da fofoca do dossiê, houve até quem comentasse que a expressão de Senna com cenho fechado mostrada à exaustão ainda nos boxes em Ímola seria fruto de uma suposta mágoa com Adriane. Como se um piloto (Roland Ratzenberger) não tivesse morrido ali mesmo naquela pista, na véspera, e outro (Rubinho Barrichello) não tivesse sofrido um acidente que o traumatizaria para sempre no mesmo trajeto, dois dias antes. Eram evidentes os indícios de insegurança no autódromo de San Marino.

Por isso, “Eu não matei Ayrton” é outra frase emblemática do doc, que resgata ainda leituras de “O Caminho das Borboletas”, livro escrito por Nirlando Beirão em parceria com Galisteu ainda no finzinho de 1994. Sobre a publicação, a série ouve Edgardo Martolio e Cynthia Almeida, então à frente da Editora Caras, responsável pela iniciativa.

Também temos depoimentos de outras testemunhas relevantes daqueles dias, como o de Roberto Cabrini, que foi setorista da Globo na cobertura da F1 e conviveu com o então piloto, e do ex-treinador e amigo de Ayrton, Nuno Cobra, que atestou a felicidade de Senna com a namorada e sua dedicação a ele.

João Wainer leva Galisteu a cenários onde ela conviveu com Senna, entre Sintra e Algarve, e permite que a loira reviva as alegrias daqueles dias – mas também a dor do desfecho, uma espécie de Conto de Fadas às avessas, que ela saberia reverter ao longo das décadas seguintes, mas não sem uma série de outros tantos obstáculos.

O descaso da família à viúva oficial contaminou até grandes entrevistadores, fazendo dela um alvo vulnerável a perguntas hostis, como bem lembra o documentário.

“Meu Ayrton” desengaveta elementos com os quais Galisteu tinha receio de se reencontrar, mas triunfa ao exibir uma figura em paz com sua trajetória.

Vale muito a pena ver.

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Cristina Padiglione

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