Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo

Benedito Ruy Barbosa exibiu ao Brasil o valor de ser brasileiro

O autor Benedito Ruy Barbosa / Foto: João Miguel Jr./ Divulgação

Nos tempos de vacas gordas – bem mais gordas – a Globo distribuía uma cota anual de passagens aéreas internacionais aos seus principais talentos. No caso dos autores de novelas, produto que demanda escala de 12 horas diárias de 7×0 ao longo dos seis a oito meses, os dramaturgos ganhavam voos para Paris, Londres, Tóquio, Nova York, Milão e outros destinos internacionais ao fim de cada obra e ao gosto de cada um.

No caso de Benedito Ruy Barbosa, autor de algumas das mais emblemáticas histórias contadas pela televisão brasileira, a preferência sempre foi por destinos dentro do próprio Brasil. Os imigrantes e suas histórias ele conhecia daqui mesmo, pela convivência na infância de Galia e Vera Cruz, no interior paulista. Vez ou outra foi à Itália, sempre tendo a referência brasileira como pretexto, como quando o personagem de Marcello Antony morria lutando como pracinha da FEB na 2ª Guerra em “O Rei do Gado” (1996).

Assim que se despedia de uma gama de tipos essencialmente brasileiros, ele partia em busca de outras lendas, outras histórias e sotaques deste mesmo território. Era um tal de diabinho guardado em garrafa, mulher que virava onça, velho que se transformava em sucuri e até homem despelado e recosturado a fazer juramento ao pé de jequitibá. Tudo isso, jurava, ele ouvia em suas andanças por cenários reais do chamado Brasil profundo.

Era a mistura de trabalho com lazer que remete àquela máxima: arrume uma profissão que você ama e a labuta será automaticamente uma diversão. Benedito, que nos deixou no último 7 de julho, era apaixonado por contar causos e se derramava em lágrimas a cada vez que narrava seus enredos a quem quer que fosse. Era telefonar para um amigo, um conhecido, um diretor, e começar a chorar enquanto descrevia as próximas tramas.

Na prática, o “lazer” do trabalho tinha seu custo. Benedito gostava de trabalhar só. Não apreciava intervenções nas suas criações – nem de colaboradores nem de atores no set. E escrever  mais de 30 páginas por dia sob a cobrança de audiência e o ritmo industrial da TV era tarefa árdua, longe de ter efeito recreativo. Exigia fôlego e saúde – e a dele, em mais de uma ocasião, sucumbiu. O caso mais exemplar se deu durante “Esperança” (2002/2003), que ele teve de abandonar em função de um AVC. A contragosto do autor, a novela foi entregue a Walcyr Carrasco para ser concluída.

Já ator que tentasse colocar “cacos” – jargão adotado na dramaturgia para designar os improvisos feitos no set sobre o texto já escrito – era prontamente repreendido pelo autor. “Imagina se eu sou louco de fazer isso?”, questionou Raul Cortez em entrevista à revista Chiques & Famosos, que eu editava, durante “Terrar Nostra” (1999), onde deu alma ao italiano Francesco Magliano.

Na mesma novela, José Dumont sumiu de cena ao criar um pigarro que criou para o papel, a fim de tornar seu personagem mais divertido do que o texto apontava.

Havia porém uma exceção. Luiz Fernando Carvalho era não só autorizado a dar pitacos no texto do autor, como incentivado a tanto. “Ele melhora o meu texto”, disse-me o próprio Benedito durante uma entrevista sobre o remake de “Meu Pedacinho de Chão” (2014, Globo), recriada em tom de fábula com diálogos bem semelhantes ao original de 1971.

Carvalho teve seu primeiro encontro com Benedito em “Renascer” (1993), um marco para a dramaturgia da Globo. A emissora se rendia então à saída dos estúdios para aderir a paisagens contemplativas rurais no horário nobre. Era a reação inevitável da emissora após o enorme sucesso de “Pantanal” (1990) na TV Manchete, sob o comando de Jayme Monjardim, que inaugurou ali uma nova linguagem dramatúrgica para a televisão. Os dois voltaram a fazer dobradinha em “Terra Nostra”, já na Globo.

Como é fartamente sabido, a extinta TV Manchete só apostou em “Pantanal” porque a Globo se recusara a produzir o épico de Zé Leôncio, erro que iria lhe custar a maior concorrência já enfrentada desde a sua ascensão à liderança hegemônica de audiência. Três anos depois de “Pantanal”, “Renascer” foi recibo passado pela Globo para o sucesso de “Pantanal”. Era a estreia das novelas rurais e de Benedito na faixa nobre dos Marinhos.

Também com Carvalho, Benedito fez “O Rei do Gado”, outro ponto fora da curva na história da TV, cujos primeiros capítulos estão entre as mais belas produções da TV brasileira. Os dois retomariam a parceria em “Esperança”.

Já “Velho Chico” (2016), apontada como a última novela do autor, foi, na verdade, um folhetim baseado no último projeto de Benedito, mas não de roteiro escrito por ele. No dia a dia, a tarefa coube ao neto do autor, Bruno Luperi, e sua mãe, Edmara, filha de Benedito, que deixou a equipe lá pela metade dos capítul0os. Luperi concluiu “Velho Chico” e mais tarde faria as adaptações de “Pantanal” e “Renascer” para a mesma Globo.

O próprio Luiz Fernando fez significativas intervenções em “Velho Chico”, uma novela que excepcionalmente tinha uma direção mais autoral que o normal, fator que também teria contribuído para a saída de Edmara do projeto.

Tarcísio Meira como Jacinto em ‘Velho Chico’, de Benedito Ruy Barbosa

Além de dispensar colaboradores para escrever seus épicos, Benedito sabia agradar a gregos e troianos na abordagem de assuntos muito delicados. Falou de reforma agrária sem demonizar o Movimento dos Sem Terra, enaltecido pela figura de personagens batalhadores e honestos, como a doce Luana de Patrícia Pillar. Tampouco deixou os proprietários rurais mal representados, trazendo para os diálogos do fazendeiro Mezenga (Antonio Fagundes) os conflitos éticos a respeito da distribuição de renda por meio da terra.

As brigas pela posição das cercas sempre pautaram suas histórias – desde “Meu Pedacinho de Chão”, como aponta o título. E o autor soube expor a dor de quem não tem seu palmo de terra para plantar, como Tião Galinha (“Renascer”), a cobiça de quem tem demais e também o remorso de quem sabe que precisa ceder a quem nada tem. Talvez o cacoete de jornalista o ajudasse um bocado nessa visão múltipla raramente alcançada em qualquer obra artística, e só um jornalista fiel aos princípios do ofício entende como é desafiador fugir da panfletagem para retratar a vida como ela é.

Muitas vezes o autor expressou em entrevistas posicionamentos que não ousava reproduzir em cena. Uma coisa era o que ele pensava; outra, como ele criava, sem perder o respeito por diferenças sociais e mesmo de gênero. Em “Pantanal”, trouxe peão gay a um universo sabidamente machista e misógino, trabalhando a dignidade do personagem e sua inclusão na esfera hétero.

Viva Benedito e a habilidade de exibir o orgulho de ser brasileiro, de furar bolhas, de promover debates sobre assuntos engavetados e às vezes envergonhados.

Que suas histórias estejam ao alcance daquilo que os filhos dos filhos dos filhos dos nossos filhos verão, ao infinito e além, por gerações a perder de vista.

 

Deixo aqui o link para o Persona Em Foco com ele, do qual tive a honra de participar em 2015, ao lado de José Armando Vanucci e de Atílio Bari.

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Cristina Padiglione

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