Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo

Acostumada ao trânsito livre, Globo vira refém em cobertura sobre prisão de Lula

Imagem aérea feita pela Globo durante a cobertura à espera da rendição de Lula, no Sindicato dos Metalúrgicos de SBC

Depois que Lula e a senadora Gleisi Hofmann tanto apedrejaram a imprensa, e a Globo em especial, atribuindo à rede dos Marinhos a culpa maior pela desgraça que desabou sobre o ex-presidente, a militância de esquerda presente no Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo só refletiu o que ouviu de seus líderes. Agrediu repórteres, em geral, e impediu  a entrada de câmeras e microfones de TV que não fossem de aliados como a TVT (TV dos Trabalhadores) e a Mídia Ninja, ambas com acesso livre ao local, sempre defendendo o político condenado à prisão.

É evidente que a mera aproximação de repórteres da Globo implicaria risco à integridade física desses profissionais. Não foi por outro motivo, e isso se deu já na sexta-feira, antes do discurso em que Lula citou nominalmente a Globo, que a emissora optou por uma cobertura que se resumiu praticamente à patética presença de um helicóptero sobrevoando o Sindicato em São Bernardo, enquanto, na GloboNews, analistas de toda ordem, trancafiados sob o ar condicionado do estúdio, tentavam diagnosticar o calor daquele momento.

Ora, a Globo e seus equipamentos não poderiam se aproximar do foco da notícia em solo, é compreensível, mas é preciso ter em conta que jornais impressos e outros veículo conseguiram informações relevantes, mesmo diante da hostilidade do PT à imprensa.

A Folha de S. Paulo contou com Ricardo Kotscho, profissional da confiança de Lula, de quem é amigo pessoal e foi assessor de imprensa. Ao saber que o ex-presidente não pretendia se entregar na sexta, passou a informação imediatamente ao jornal.

No “Estadão”, o repórter Marcelo Godoy conseguiu em primeira mão a informação de que Lula negociava com a Polícia Federal que pudesse se entregar apenas no dia seguinte, em razão da missa que seria rezada pela data de aniversário da ex-primeira dama, dona Marisa Letícia.

Nenhum dos dois veículos precisou botar câmeras e microfones para dentro do Sindicato para obter informações. Havia lá, ao lado de Lula, uma série de figuras da política nacional. A Globo não teria acesso a nenhum deles para obter informações mais precisas do que jogar o foco das câmeras do Globocop sobre uma pick-up que descarregava sacolas brancas, provavelmente cheias de alimentos, próximas ao Sindicato? Supor que fariam um churrasco foi a informação exclusiva mais relevante que a emissora obteve?

A Globo é, sabidamente, o canal de TV com melhor estrutura neste país. Faz e acontece, tem mais profissionais em campo, uma rede mais bem abastecida e organizada para a cobertura de fatos a qualquer distância, e talvez pelo tamanho soberano de sua audiência, esteja também muito mal acostumada a receber notícias de bandeja. É claro que nem todo furo jornalístico da Globo cai no colo, até porque, em geral, notícias que interessam ao público não interessam aos seus protagonistas.

Mas, no momento em que uma barreira se anuncia entre ela e a notícia, bingo, a condição de refém parece inexorável. Seria demais pedir que algum repórter/produtor acionasse algum conhecido dentro do Sindicato ou próximo do Partido dos Trabalhadores? Faltam aos profissionais da emissora fontes ligadas ao partido que governou o país por 13 anos, tão recentemente? O acesso deve realmente ficar condicionado à presença de uma câmera lá dentro, mesmo estando nós na era em que qualquer celular filma qualquer coisa em qualquer lugar?

No velório de vítimas do voo da Chapecoense, uma repórter da Globo fez imagens não autorizadas da ocasião, mostrando a dor não autorizada das famílias em luto. Choveram críticas ao abuso daquela circunstância, tratada como falta de respeito à dor alheia, evidentemente.

Em São Bernardo, a situação era bem outra. Havia um condenado pela Justiça para se entregar, primeiro ex-presidente com prisão decretada e um impasse sobre sua rendição. Falta à Globo retomar a noção de esforço de reportagem, independentemente de sua canopla, que normalmente lhe abre todas as portas. É um desafio que há de fazer bem ao Jornalismo, de modo geral.

 

Curta nossa página no Facebook e siga-nos no Twitter

Cristina Padiglione

Cristina Padiglione