Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo

Autor e diretor bancaram alto risco em ‘A Favorita’, dizem Patrícia Pillar e Cláudia Raia

A dupla Donatella/Faísca (Cláudia Raia) e Flora/Espoleta (Patrícia Pillar) em 'A Favorita', novela que desafiou as previsões do público. Foto: Rafael França/Divulgação

“Você nunca mais vai anunciar nada, nem uma caixa de fósforos”, advertiu o autor João Emanuel Carneiro a Patrícia Pillar quando a convidou a ser Flora, uma das protagonistas de “A Favorita”. De 2009, a novela deixou boa parte de sua plateia com raiva após o capítulo 60, quando revelou-se que nada era o que parecia ser.

“As pessoas se sentiram ludibriadas, enganadas, mas o autor depois soube colocar todo mundo no jogo”, lembra Patrícia.

Por duas horas, ela, Cláudia Raia, que dava voz a Donatela, sua inimiga, e Mariana Ximenes, a Lara, filha biológica de uma, criada pela outra, falaram com jornalistas na quinta-feira (21) por meio de um encontro virtual para falar sobre a chegada de “A Favorita” no Globoplay, a partir desta segunda-fera (25). Doze anos depois de sua exibição original, esta será a nossa primeira chance de assistir à novela.

Para elas, será a primeira chance de ver o trabalho todo na tela, já que o ritmo de gravações da época consumia-lhes até 18 horas em um dia. “Uma vez saí do estúdio às 23h e tinha que estar de volta na manhã seguinte, às 6h”, lembra Cláudia. “Do meio para o fim, não deu para ver nada”, emendou Patrícia.

As duas protagonistas enaltecem a coragem do autor e do diretor, Ricardo Waddington, para bancar uma aposta arriscada como aquela, que não apenas fugia, mas invertia estereótipos e assaltava o espectador em sua mais cômoda zona de conforto, a novela das nove.

“A Favorita” não entregava uma linha óbvia de raciocínio nem diálogos mastigados, obrigando o público a pensar, a se remexer, a tentar adivinhar o que se passava e, o mais arriscado para abalar os números do Ibope, a se decepcionar no meio da trama. A maioria dos dramaturgos de TV, pelo menos até ali, teria preferido guardar para o fim da trama a virada promovida no capítulo 60. “[Na época], eu pensei: ‘meu Deus, esse homem é louco. Como ele vai segurar essa novela a partir daqui?'”.

Era novidade demais para não afetar a audiência, e afetou. Para cima. A trama, que começou com índices abaixo das novelas anteriores, tomou novo fôlego após a revelação da verdadeira história das ex-integrantes de uma dupla caipira que fazia sucesso com o clássico “Beijinho Doce”, cantado pelas próprias atrizes.

Cláudia, Patrícia e Mariana reconhecem ainda que o sucesso de “A Favorita” certamente pesou para o fenômeno que João Emanuel e Waddington alcançaram na missão que os uniu a seguir, dali a quatro anos, quando “Avenida Brasil” chegou para quebrar tudo. Não por acaso, a plateia de novela ouviu na abertura de “A Favorita” os primeiros acordes do sedutor tango do Bajofondo, banda argentina que viria a pontuar a genial trajetória de Carminha (Adriana Esteves) pelo bairro do Divino.

Patrícia e Cláudia sabiam o que as esperava, mas a maioria do elenco, não -talvez só Ary Fontoura, o traíra do Silveirinha, que cuspiu na cara de Cláudia Raia em cena, sem avisar-, soubesse quem era a víbora. “Eu só soube quem era boa e quem era má um pouco antes do público e por meio dos capítulos que eu recebi”, conta Mariana. Isso assegurava a surpresa dos demais atores, contaminando suas atuações, na mesma medida em que a plateia também saltava do sofá.

O público de novela, afinal, sempre esteve apoiado na segurança de uma receita que lhe permitia acreditar piamente no que ia acontecer, com raras surpresas. O meio do caminho entre o primeiro e o último capítulo pode até reservar aquelas ciladas que enroscam os pontos de nó do novelo, digo, da novela, mas, no final, o mocinho há de ter a sua paz, e o bandido, o calvário que tentou impingir aos demais por 200 capítulos.

João Emanuel subverteu tudo, a começar pela escalação das atrizes: uma de traços angelicais, outra, excêntrica pelo próprio físico. E pelos nomes de cada uma. Afinado com a proposta, o diretor Ricardo Waddington promoveu e endossou a escalação de atores que pouco tinham a ver com aqueles papéis, outra cartada que driblou a obsessão de vidente que normalmente habita o telespectador de novela.

Copio abaixo os principais trechos da entrevista concedida por Patrícia Pillar, Cláudia Raia e Mariana Ximenes via videoconferência:

OUSADIA

Patrícia: “O autor tem que estar fechado com a direção, a pressão [da direção da empresa] é grande, era muito arriscado. Eu louvo a coragem dele, a determinação, a confiança no que ele tinha de trama, porque desistir no meio do caminho seria muito ruim. Isso, ao mesmo tempo pode levar a um meio do caminho, em que você fraqueja das suas ousadias.

Claudia: “Um meio do caminho não é nada.”

Patrícia: “Exato. É lindo ver você acreditar na sua história, nos seus personagens até o fim, isso é uma coisa de que a gente precisa. Essa ousadia do João Emanuel já era uma tentativa de buscar caminhos novos”. 

TROCA DE PAPÉIS

Cláudia: “Pra mim foi muito importante esse papel porque eu venho de comédia, faço mais comédia que drama. João Emanuel achou que eu podia fazer esse papel por causa da Engraçadinha, do Nelson Rodrigues, que eu fiz em uma minissérie, que também foi um turning point [virada] na minha carreira. Donatella foi um grande exercício de vida, de aprendizado.”

Patrícia: “É muito fácil o autor pensar num ator que já esteja pronto pro personagem, por isso muitas vezes há a repetição de atores nos mesmos papéis,  ainda mais em novela, que não tem muito tempo pra produzir. Tanto no caso da Cláudia quanto a mim, foi importante pensarem na gente como personagens que não eram comuns pra nós, vejo na carreira da Cláudia um leque de personagens, é uma atriz que tem essa coragem de ir a lugares que você não tem segurança, mas às vezes os autores e diretores preferem atores que eles já conheçam naquele lugar. Não era uma vilã e uma mocinha, não eram esses lugares, era um lugar da doença, não eram papéis de esterótipos e iam se ajeitando a partir dali, eram personagens difíceis. Eu sou muito grata pela Flora.”
O autor e o diretor têm que ser muito ponta firme pra fazerem essas apostas que eles fizeram.
O legado é o personagem em si, porque ele me alargou, ele me deu possibilidades, o personagem bom te incentiva a ir por uns lugares que você nunca foi e te volta com uma pergunta: ‘Você não é um pouco assim também? ‘Você não quer ser assim?’, ‘Você não quer pensar quem você é?’.

Mariana: “O João trouxe isso muito na ‘Favorita’: personagens muito bem escritos, complexos, dicotômicos, multifacetados, malucos, profundos. A Lara era uma personagem com conflito muito forte, a verdade entre as duas mães, quem é sua verdadeira mãe? Traz essas questões de validação do amor, de afeto materno, criação, tive que trabalhar muito a raiva e eu levava uma espuma… O nosso personal me trouxe uma opção de treinar boxe, eu levava uma espuma densa, gigante [para o set], e antes de entrar em cena eu socava muito, e entrava já [ofegante]. Era um trabalho de atriz que de desafia, provoca, e você tem que abrir várias gavetas em você”.

CENAS MEMORÁVEIS

Cláudia: “A cena em que o Silveirinha cospe na Donatella foi um crescendo de tensão, e uma hora eu chego muito de cara, muito perto mesmo, do Ary [Fontoura], e ele de repente, tchu, cospe na minha cara. Eu fiquei louca, era uma coisa não ensaiada, e a cena ficou maravilhosa. Quando acabou, todo mundo aplaudiu, então quando você contagia o estúdio, quando todo mundo embarca naquilo, é de uma satisfação enorme. Imagina,o Aryzinho é a pessoa mais doce desse mundo, levei um susto (risos).”

Patrícia: “Eu lembrei uma cena que eu amei fazer, justamente eu fazia a Donatella, para a Donatella, pra matar a Donatella de inveja, que ela ia presa, e eu chegava lá com tudo da Donatella, brincos, sapatos, roupa e eu chegava lá dizendo que tinha roubado tudo dela: a roupa, o sapato, o marido, a filha. A Flora se vestia muito simplesinha, até pra provar que ela não gostava muito de dinheiro, então foi muito divertido e era pra matar a outra de inveja. A novela tinha uma coisa pesada, mas eu achava a Flora engraçada, ela era tão perversa que tinha um absurdo de tudo aquilo. Acho que foi onde eu tentei que não ficasse tudo tão pesado.”

BASTIDORES

A novela era muito pesada, calcada em sentimentos de vingança, ódio, então os bastidores eram muito leves, nós tínhamos um ótimo entrosamento. Foi um ano muito intenso. Lembra que queriam que a gente gravasse um disco? Não tinha tempo! Mas quem canta mesmo é a Cláudia.”

APRENDIZADO

Mariana: “Muitas vezes eu não estava na gravação e ficava só observando, Glória Menezes, Murilo Benício, Mauro Mendonça, só na dramaturgia observando pra aprender.”

 

 

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