Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo

Racismo combatido em ‘Pátria Minha’ completa 25 anos e continua atual

Alexandre Moreno, Fábio Assunção e Cláudia Abreu em cena que acusa o racismo da vida real na novela Pátria Minha/Reprodução

No dia em que “Pátria Minha”, de Gilberto Braga, completa 25 anos, o sempre atento dramaturgo e roteirista Wesley Vieira me envia o vídeo abaixo, uma cena de blitz com Cláudia Abreu, Fábio Assunção e Alexandre Moreno em que o carro deles é parado e só ele, negro, é revistado pelos policiais.

Rodrigo, personagem de Fábio Assunção, ainda comenta, pouco antes de cruzar a barreira policial, que vive passando por blitz no Rio de Janeiro, sem jamais ter sido parado. Mas Kennedy (Alexandre) já avisa que dessa vez será diferente. Dito e feito. Os três descem do carro e só ele é jogado contra a parede para a revista. Alice (Cláudia Abreu) então contesta. Quer saber por que só o amigo negro foi revistado. Rodrigo endossa e pergunta se ele foi poupado por ter “olhinhos azuis”.

Rodrigo comenta que muita coisa avançou. “Isso agora é crime”. “É crime só no papel”, protesta Alice.

Vinte e cinco anos depois, a cena poderia perfeitamente ir ao ar hoje, sem exagero. Basta lembrar o caso do músico Evaldo Rosa, morto em maio, que teve o carro fuzilado por soldados do Exército em uma blitz no mesmo Rio de Janeiro.

Para os índices de audiência da época, “Pátria Minha” foi considerada um “fracasso”. Mas, veja bem, deu 55 pontos no capítulo final, índice impensável para os padrões atuais. A denúncia e o combate ao racismo eram pontos altos da trama, assim como a questão dos sem-teto. A personagem de Patrícia Pillar morria em uma desocupação de terreno.

Parte da militância negra, no entanto, não entendeu os diálogos como protesto e encrencou com a criação de Gilberto Braga, uma pena.

Pena também que a novela seja até hoje mais lembrada pela briga conjugal entre Vera Fischer e Felipe Camargo, protagonistas de cenas de bastidores que acabaram comprometendo a produção, em razão de atrasos e falta dos atores às gravações, com inevitável contágio dos desentendimentos entre eles nos bastidores. O autor foi obrigado a promover um incêndio na trama para matar os personagens do casal e livrar-se do problema, lembrando que ela tinha participação essencial no triângulo central.

Injustiçada pelas circunstâncias e pela falta de compreensão até de quem deveria aplaudir a história, “Pátria Minha” nunca foi reprisada nem no Vale a Pena Ver de Novo. É uma das raras novelas das oito da década de 1990 que não mereceu até hoje reprise no Viva.

Gilberto Braga contava com a colaboração de Alcides Nogueira, Leonor Bassères, Sérgio Marques e Angela Carneiro. O elenco era encabeçado por Tarcísio Meira, no papel do inescrupuloso empresário que ele interpretou algumas tantas vezes em novelas. José Mayer, Eva Wilma, Marieta Severo, Carlos Zara, Carlos Vereza, Renata Sorrah, Gianfrancesco Guarnieri, Renée de Vielmond, Rodrigo Santoro, Deborah Evelyn e outras grandes grifes fechavam o elenco.

 

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