Tino Marcos surpreende em mesa redonda sobre a Copa no Porta dos Fundos
Como diria Adriana Calcanhoto, “nada ficou no lugar”.
Aquele Campeonato, mesa redonda do Porta dos Fundos que une Marcelo Adnet, Tino Marcos, Valentina Bandeira, Rafael Saraiva e Leandro Ramos durante esta Copa do Mundo faz jus ao verso musical acima.
Na fragmentação de telas e de direitos esportivos que rege as transmissões das principais competições do mundo atual, o desafio hoje é saber onde ver o quê. Mas a Copa do Mundo opera milagres como a retomada de fôlego da produção de humor na TV – e por TV, entendamos tudo: a linear paga e aberta, o YouTube e também outras plataformas de streaming.
Em temporadas de grandes competições esportivas, especialmente em Copa do Mundo, sempre há mais emprego para humoristas. É fato.
E na seara da bola, não foram só Galvão Bueno e Tiago Leifert que trocaram de canal. Fábio Porchat e Marcelo Adnet também se alternaram em suas posições. O primeiro foi fazer companhia ao debate de fim de noite na Globo, agora sob o comando de Tadeu Schmidt, e o segundo ocupou espaço no Porta dos Fundos, o mais bem-sucedido coletivo de humor da última década.
Nesse espaço está também Tino, um dos principais repórteres de esportes do plim-plim nos últimos 30 anos. Uma semana antes do início da Copa, o grupo conversou com jornalistas, incluindo a signatária deste TelePadi, sobre a proposta de Aquele Campeonato, uma mesa redonda com humor, claro, e não apesar da falta dos direitos de transmissão do evento, mas justamente em função disso.
A ausência de contrato com a FIFA aparentemente restringe o conteúdo – eles não têm direito a imagem alguma, mas isso é o que menos importa para uma mesa redonda disposta a tirar um bom proveito de um evento que vem ocupando a atenção dos brasileiros no momento. Mesmo quem nada entende de futebol veste a camisa de torcedor em tempos de Copa.
Como o Porta dos Fundos não tem esses direitos, as regras para TV e internet acerca do mundial impedem até que se pronuncie ali o nome “Copa do Mundo”. Daí o título escolhido para a mesa redonda do Porta, alvo de três encontros por semana ao longo da competição. A cada vez que alguém ameaça dizer “Copa…”, vem logo a correção “ops, ‘Aquele Campeonato'”.
E já que neste caso, sem direitos de transmissão, não há parceria comercial que justifique bajulação em troca de entrevistas exclusivas, o aproveitamento da discussão é bem maior. Para Tino, mesmo quem tem os direitos de transmissão da Copa da vez sofre hoje com a falta de elementos exclusivos relevantes na percepção do público.
A afirmação certamente considera o acesso tão maior que ele mesmo já teve em seus tempos de Globo e que hoje estão sufocados pela blindagem promovida pela comunicação corporativa, manuais de assessoria de imprensa de CBF, FIFA e afins, mais uma infinita cartilha jurídica. Dar plantão na porta do hotel da seleção já foi tarefa bem mais tranquila no passado.
Os desafios para driblar restrições de conteúdo – e também de orçamento – podem bem favorecer o humor ali praticado.
Desde que os gols da rodada do Fantástico trocaram as narrações de Léo Batista por apresentadores que contracenam com bonecos-cavalinhos, é latente a percepção comercial de que o riso é capaz de agregar à plateia de obcecados por futebol um público que mal sabe o que é impedimento.
Passadas duas semanas do início da Copa do México/EUA/Canadá, podemos dizer que Aquele Campeonato vale ser visto e curtido. E não só pelas ótimas intervenções de Adnet, que agora nos brinda com boas imitações de Léo Dias e campanhas contra Bets. De alguma forma, a gente sempre espera dele uma certa genialidade, e ele bem que costuma contemplar nossas expectativas.
Mas ver Tino Marcos nessa roda, pronto para costurar – e muitas vezes até melhorar – as intervenções e piadas do restante da trupe é uma grata surpresa. Longe de suas crônicas previamente escritas e bem editadas, com toda aquela infraestrutura de que a Globo dispunha no seu tempo, o repórter de TV que mais esteve em campo em nome da camisa-canarinho sabe se divertir e divertir a audiência do YouTube sem se ocupar de vaidade ou pré-produção.
Como representante da profissão que zela pela máxima ‘quem sabe faz ao vivo’, Tino rebate, complementa e contesta sem perder a fleuma e o ritmo, mas principalmente, sem perder o humor, riqueza maior de quem sabe se comunicar.
Daniel Belmonte, chefão de criação do Porta, explicou que Aquele Campeonato faz parte de um novo momento do Porta dos Fundos no contexto da expansão de formatos.
De alguma forma, como diz o diretor, “o humor é a estratégia para falar com o público que não entende de futebol”, mas sem perder o interesse de quem entende.
‘A gente tinha muita vontade de entrar no território do esporte, mas havia esse impedimento objetivo: a gente não tinha imagem e descobriu que não podia nem falar ‘Copa do Mundo’. Então pensamos: ‘E se a gente assumisse que tem tudo isso e fizer um programa assim? E dessa limitação de signos e significados nasceu o imput de comédia para esse programa”, completa.