Uma existência a ser celebrada: de Majô a Esther, meu amor eterno
Minha irmã de vida, amiga de fé, camarada amada e confidente, a mais divertida, a mais leal, a mais tudo de bom, agora olha por nós de algum lugar que não podemos alcançar, mas podemos sentir. Virou estrelinha.
Conheci Esther Levenstein no início dos anos 1990 no 2º andar da Barão de Limeira, 425, como Maria José Casarotto, seu nome de nascimento, e logo passei a chamá-la como Mary Joe – apelido dado pelo nosso amigo não menos inventivo e querido Sérgio Ribas, que também me batizou como Padi nos saudosos tempos da Folha da Tarde.
No final da mesma década, voltamos a trabalhar juntas na Editora Símbolo, quando emendávamos longos expedientes nas madrugadas de sexta para o fechamento da revista Chiques & Famosos, ao lado do saudoso Carlos Hee, que a chamava de Majô, referência também seguida pelo Marcelo, marido e companheiro meu, a quem ela fazia rir como poucos fazem.
Nossa convivência se intensificou com a mudança dela para o prédio colado ao meu, época em que vivíamos pulando de uma casa para outra a qualquer hora do dia – para comer, para beber, para ver um filme ou só fofocar, celebrar ou se lamentar. Tudo desembocava em gargalhada.
Quando dizia que me amava, sempre fazia a ressalva: “Sem sapice, Padi!” E ria. Era amor de irmã de alma.
Majô dava os melhores apelidos às pessoas – chefes, colegas de trabalho, familiares, amigos e inimigos. Eu só conseguia concordar com a precisão e achar graça – na hora e toda vez que encontrava os apelidados.
Mary/Majô/Esther foi embora deste plano na última semana sem o nosso consentimento.
Mas, que diacho, as despedidas nunca se consumam sob o nosso aval, elas simplesmente acontecem. Ela mesma não queria ir de jeito nenhum, como pude atestar no telefonema que recebi meses atrás, diretamente de Jerusalém, para onde ela se mudou há sete anos com o Hélio Levenstein, seu companheiro, e a filha caçula Nina. Foram se juntar a Nathalia, a primogênita dela, que lá já estava fazia algum tempo.
A estreia de um novo nome, quando se tornou Esther, aconteceu pela decisão de se converter ao judaísmo, o que ela levou absolutamente a sério em todos os ritos possíveis, até seguir para Israel.
No dia em que me ligou para falar da saúde sob risco, choramos ao telefone, mas nao demoramos a rir, para variar, porque o humor, mesmo nas tragédias, era um dom dessa figurinha que eu tanto amei e que amarei para sempre na minha memória e em todas as minhas referências de vida.
Para além de um tributo que pretendo aqui prestar à memória dela, quero atestar que foi das pessoas mais leais que conheci, alguém que muito ombro e ouvidos me ofereceu sempre e permanentemente, até nos momentos em que eu fui mais chata, devolvendo-me invariavelmente esperança e leveza. Acordar com áudio dela no celular era chave para um dia bom. Um Bom Dia de fato.
Que a risada dela me acompanhe até o fim. E que as meninas Nathalia e Nina, e o companheiro Hélio, a irmã Glauce e todos que puderam conviver com essa pessoa iluminada tenham a certeza de que tivemos muita sorte em compartilhar este mundo com ela, amada Mary Joe, Majô, e Esther por escolha própria.
Te amo para sempre. Sem sapice!

Ela, Carlos Hee e eu, provavelmente ao som de Abba, chamando o irredutível Marcelo Godoy para a pista, em foto do Nelsinho Peixoto