Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo

Marcelo Tas e Rafinha Bastos resgatam a franqueza no exercício de entrevistar

Rafinha Bastos e Marcelo Tas: reencontro no Provoca / Foto: Nadja Kouchi/ Acervo TV Cultura

Companheiros de bancada do histórico CQC, programa que fez história na Band entre 2008 e 2015, Marcelo Tas e Rafinha Bastos se reencontraram pela primeira vez diante das câmeras para uma conversa que lhes valeu uma espécie de acerto de contas. Ou, como anunciou a TV Cultura, uma lavagem de roupa suja. É o caso de notar que poucas vezes na história do Provoca, título herdado do vasto repertório de Antonio Abujamra e seu Provocações naquele mesmo canal, uma entrevista fez tanto jus ao nome da atração.

Temos nos habituado a testemunhar uma certa pasteurização do exercício de entrevistar, como se o entrevistador não quisesse incomodar o entrevistado e o entrevistado também não quisesse se expor para além da imagem que ele deseja transmitir, muitas vez cercado por um estafe cada vez maior de especialistas em Relações Públicas, Publicidade e assuntos jurídicos. Esse aprimoramento de uma comunicação programada e programática tem esvaziado a franqueza das conversas chamadas de “entrevista”, transformando tudo em papinho de comadres e, às vezes pior, numa passação de pano sem fim.

Naturalmente, todo mundo tem sua dose de filtro, a fim de se preservar de julgamentos alheios e da tal da cultura de cancelamento digital, um mal da nossa era, que fez do próprio Rafinha um pioneiro entre as vítimas desse surto acelerado pela expansão das redes sociais. Nos tempos de Cristo, o linchamento público consistia em atirar pedras no cancelado. A ausência de uma comunicação que conectasse tanta gente em tempo real gerava uma condenação mais vagarosa, que no entanto muitas vezes acabava em crucificação ou enforcamento.

No Provoca que a TV Cultura levou ao ar na terça-feira, 6, disponível no YouTube, Rafinha reconheceu que arca com o ônus de ser apedrejado quando faz uma piada até reconhecida como sem graça, como lhe provocou Tas sobre o episódio Wanessa Camargo. Mas o entrevistado não se furtou de expor seu incômodo pela falta de solidariedade da época em que foi suspenso, e depois desligado do CQC.

Tas voltou a provocar. Irônico, perguntou se deveria ir ao seu salvamento munido de uma capa [como um super herói]. Reforçou que o entrevistado até hoje quer ter razão sobre a suposta piada, o que o prejudica.

O entrevistado retrucou, alegando que não se queixa da percepção de que o comentário não tinha graça,  mas sustentando que faltou-lhe uma defesa a endossar o “risco” assumido por alguém na sua posição, que semanalmente tinha um microfone aberto ao vivo. “O Rafinha fez uma piada sem graça, mas ele corre risco todo dia”, exemplificou o entrevistado.

Tas então revidou: Rafinha não pensou no coletivo do programa ao fazer o comentário sobre Wanessa. Na sua resposta, embora não tenha sido explicitado, está o fato de que todos tinham um roteiro a seguir, previamente escrito e aprovado por direção e apresentadores, de modo que as improvisações de fato eram um risco – um risco que os humoristas adoram correr, mas que, como se mostrou, resulta em consequências individuais, para o bem e para o mal.

Na questão de Rafinha sobre solidariedade, talvez faltasse apenas completar que ele de fato não quisesse passação de pano nem super-herói a defender uma piada sem graça, mas certamente não era o caso de outro membro do programa (que não Tas), oferecer o ombro a representantes de grandes anunciantes do programa para corroborar o cancelamento do colega. Quem sabe um dia essa outra história seja contada por seu protagonista?

Detalhe: nem Rafinha nem Tas levantou a voz, xingou ou choramingou. A ironia, elemento crucial dos bons tempos do CQC, é um recurso potente para argumentar sem perder a elegância e também um meio mais inteligente de chegar ao coração do espectador.

É claro que muitos bastidores sobre aquele episódio não foram expostos nesse Provoca, inclusive porque a entrevista era também uma celebração ao cara que, cancelado aqui, hoje lota plateias no país de Trump – este sim, um sujeito sem qualquer aptidão para o humor.

O entrevistado repete, como me disse em uma entrevista há quase dois anos, queria se desafiar no país do stand up, onde estão seus maiores ídolos. Mas a Tas, também associou a ida aos EUA com a falta de oportunidades que encontrou aqui. Na verdade, menos de três anos após a saída do CQC, a Band o convidou a assumir o Agora é Tarde, talk show iniciado por Danilo Gentile e Ultraje a Rigor, hoje no SBT. Rafinha trouxe André Abujamra para a banda e repaginou o programa, que depois só saiu do ar por corte de custos realizado pela emissora dos Saad.

Convém reparar ainda que nesta edição do Provoca, Tas não recai no clichê da eterna questão sobre “os limites do humor”. Ao mesmo tempo, aborda em tom de leve deboche um dilema frequentemente discutido, sobre o papel do CQC na popularização que levou Jair Bolsonaro à presidência da República. O nível de perguntas no Provoca é notadamente excepcional, muito acima da média atual da TV, ou dos poucos programas de entrevistas que restaram nela.

O próprio Rafi Bastos, como agora é conhecido pela robusta agenda de shows stand-up nos Estados Unidos, não tropeça em clichês quando está no papel de entrevistador – as edições de seus Oito Minutos e do Mais que 8 Minutos em seu canal no YouTube também zelam pela franqueza de perguntas e respostas. Há diálogos imperdíveis por ali.

Assim, quando Tas e Rafinha se juntam, temos um modelo exemplar do que é uma entrevista sem aquele cacoete do cara que, em vez de perguntar, fica só levantando a bola para o outro cortar. Entrevista não tem de ser inquisição, mas também não é partida de vôlei. E pode muito bem transcorrer no tom de boa conversa, desde que o jogo de cena envolva personagens honestos em seus questionamentos, réplicas e tréplicas.

Fica a dica e, abaixo, a edição completa.

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