Glória Menezes e Laura Cardoso: um noticiário não basta para obituários de tal relevância
A gente mal havia digerido a morte da Laura Cardoso, aos 98 anos, e logo veio outra notícia de luto na sequência, de novo sobre uma atriz gigante nonagenária. Glória Menezes, 91 – quase 92 – partiu poucas horas depois.
Não há edição do Jornal Nacional que baste para acomodar duas histórias tão gloriosas – sem trocadilho, por favor – e longevas. É curioso lembrar que mais ou menos o mesmo se deu com Tarcísio Meira, que partiu menos de 24 horas depois de outro gigante, Paulo José. Mas, naquele caso, ao menos os obituários se distribuíram em dias diferentes.
Tarcísio e Glória tiveram na vida real um casamento de novela. Não houve par no imaginário brasileiro que se equiparasse aos dois, e aí não vai nenhum demérito a outros casais famosos, apenas a consideração de uma força inigualável desfilada por ambos em cena, estivessem ou não no mesmo plano.
Da dona Laura, vou me lembrar para sempre da mãe das gêmeas Ruth e Raquel (“Mulheres de Areia”), da peste da sogra da Indira (Eliane Giardini em “Caminho das Índias), da “Viagem”, do “O Outro Lado do Paraíso”, etc, e etc.
De dona Glória, trago a eterna e constante memória de Laurinha Figueroa (“Rainha da Sucata”), claro. Não há vez que eu não passe diante do prédio que hoje abriga o Tribunal de Justiça, na avenida Paulista, bem ali na frente do Spot, que eu não olhe para o alto e lembre que Laurinha pulou dali para a morte, mas não antes de arrancar um brinco da sucateira de Regina Duarte, para torná-la suspeita de assassinato.
Glória está no meu imaginário por muitas mulheres, em especial por “Brega & Chique”, e também pelo lindo casal formado com Raul Cortez em “Senhora do Destino”, em que ela vivia o Alzheimer com uma delicadeza aflitiva.
Lembro-me de Silvio de Abreu manobrando a rejeição da audiência a um possível romance entre ela e uma das lésbicas de “Torre de Babel”, após a personagem fracassar num casamento com um personagem vivido pelo próprio Tarcísio. Parecia muita mudança para a idealização da audiência em torno da diva.
Também a vi no teatro, corajosa, nua, de cabeça raspada, já sexagenária, com texto (“Wit”) de cortar a alma da plateia.
Entrevistei Glória em um apartamento seu em São Paulo, se não me falha a memória, no bairro dos Jardins, para uma edição especial em tributo aos 50 anos da TV, nos anos 2000, para o Estadão. O texto foi reproduzido no livro “A Vida com a TV – O Poder da Televisão no Cotidiano” (Ed. Senac São Paulo) numa coletânea organizada pelo jornalista Luiz Costa Pereira Junior, que então editava o suplemento de TV do vespertino dos Mesquitas.
E é esse o material que resgato abaixo, em tributo a memórias tão relevantes como as de Laura e Glória para a construção do repertório nacional.
Na conversa, Glória lembra um episódio que mudou a história – e a sua história: sua presença como Rosa, esposa do protagonista Zé do Burro (Leonardo Villar) no filme “O Pagador de Promessas”, vencedor da Palma de Ouro em Cannes, foi um acidente. Ela estava escalada para ser a prostituta do enredo de Dias Gomes dirigido por Anselmo Duarte, mas acabou por assumir a personagem antes destinada à atriz Maria Helena Dias, que adoecera.
A ATRIZ
Glória Menezes

Primeira heroína da primeira telenovela diária da TV brasileira, Glória Menezes não tinha muita noção de onde estava pisando. Não que sua estreia tenha sido naquela produção da Excelsior, em 1963 (o nome era 2-5499 Ocupado, título que dificilmente mereceria crédito na indústria hoje sustentada pelo gênero). É que ninguém conhecia mesmo a magia do negócio.
A cena inaugural de Glória na tela deu-se em um programa feminino, à tarde, na Tupi, apresentado por Maria Tereza Gregori.
_ Havia um quadro de dramaturgia de 15 minutos e eu fui fazer Senhora, de José de Alencar, ao vivo, claro – lembra.
A indústria cosmética não permitia um décimo dos milagres que hoje multiplicam feições e a atriz viu-se homem feito em uma caracterização para a novela Almas de Pedra (1966, na Excelsior).
_ Falei para o Avancini [ Walter]: “Vou entrar no estúdio caracterizada como homem. Se derem risada, vou embora”. Não era comédia. Aí, Dionízio [Azevedo], que não sabia que era eu, foi perguntar quem era aquele ator novo que estava lá. As pessoas nem lembram, mas fiz uma freira, de cabelos cortados à navalha, na novela O Grito (1975). Ela largava o hábito e casava-se: “Descobri o meu corpo pelas mãos do meu marido”; era maravilhoso!
A parceria com Tarcísio Meira reforça a mitificação feita pela profissão.
_ Se somos o casal mais famoso da TV, não sei; sei que vivemos a história dela.
Na falta de planejamento, eram literalmente “jogados” em cena.
_ Quando fiz A Deusa Vencida (1965), eu tinha uma queda em uma escadaria, gravada take a take. Eu rolava um degrau, parava. Mais um close no calcanhar, parava. Cara de susto (congela a expressão). Como no cinema. A edição era artesanal, cortando a fita à mão mesmo. As primeiras fitas de gravação eram superlargas, um equipamento do tamanho de uma sala. Aquilo seguia por todo o Brasil e depois era apagado por outra graavação. Os capítulos de novela chegavam a Manaus, Recife um mês depois de serem vistos em São Paulo.
A atriz lembra que Maria Helena Dias, escalada para o papel da mulher de Zé do Burro no filme O Pagador de Promessas, pegou uma pneumonia dupla e o diretor não podia esperar: tinha de devolver o equipamento, alugado de um francês. O longa deu a Anselmo Duarte a Palam de Ouro em Cannes.
_ Se eu disser que fui filmar na Bahia e, de loira que estava, preparada para fazer o papel da prostituta, tive o cabelo pintado para assumir Rosa… O que não se fazia na TV ao vivo?
Aos 64 anos, 40 de carreira e dispensada de provar a que veio, Glória Menezes recorre a um bom exemplo para reafirmar suas motivações:
_ Roberto Marinho tinha 60 anos quando resolveu investir em uma TV. Imagine se ele tivesse se acomodado…