Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo

Morre Nilton Travesso, o ‘coadjuvante’ que tinha prazer em criar protagonistas

Fotografado em sua casa aos 90, durante um dos depoimentos para o livro autobiográfico / Foto: Emanuela Godoy/TelePadiPress

Diretor que teve sua trajetória marcada por alguns dos maiores êxitos da televisão brasileira, da Record à Globo, passando por Manchete, SBT, Band e Jovem Pan, Nilton Travesso morreu nesta sexta, 6 de novembro, aos 92 anos. Travesso vinha sofrendo de problemas respiratórios delicados nos últimos anos, em decorrência de uma deficiência na válvula mitral. Em maio, pouco antes de completar 91 anos, extraiu a vesícula.

Nos últimos três anos, era internado a cada três ou quatro meses no Hospital Sírio Libanês para sanar a presença de água na pleura. A última internação ocorreu na terça-feira, 3, e foi lá que Travesso saiu de cena após uma infecção generalizada que não deixou esperança aos médicos. Foi sedado à espera do fim.

O diretor deixa a mulher, a apresentadora Marilu Torres, dois filhos – o também diretor de TV Marcelo Travesso e Camila – além de quatro netos. Deixa também uma extensa lista de referências para tudo o que se compreende como televisão hoje, do tempo real ao streaming, fruto de um rico repertório criado por ele ao longo de 60 anos por trás das câmeras.

Discreto e hábil em administrar egos, foi permanentemente um coadjuvante para que muitos pudessem brilhar como protagonistas. E tinha sincero prazer em fazer os outros brilharem. Ele mesmo chegou a vivenciar algumas experiências como ator nos primórdios da TV Record, canal que ajudou a fundar, mas entendeu que seu negócio ficava no lado contrário ao dos holofotes.

Com perdão pelo clichê, a história deste paulista nascido em Sorocaba (SP) e criado no bairro paulistano do Bexiga se mistura à da TV brasileira desde 1953, quando Paulo Machado de Carvalho fundou a TV Record – canal 7 de São Paulo, no bairro do Aeroporto. Ao se inscrever em um grupo de candidatos dispostos a aprender o então novíssimo ofício de cameraman, Travesso passou pelas peneiras seletivas que o levaram ao time responsável pelo lançamento do terceiro canal de TV de São Paulo – Tupi (1950) e TV Paulista (1952) vieram antes.

Logo se tornou amigo de Tuta, Antonio Augusto Amaral de Carvalho, um dos filhos do dono, com quem formou a lendária Equipe A, ao lado de Raul Duarte e de Manoel Carlos – que mais tarde se tornaria um dos maiores novelistas da TV brasileira. Travesso era o último remanescente deste time que assinou alguns dos programas que viriam a figurar entre os maiores referenciais do nosso audiovisual.

Nomes como Roberto Carlos, Elis Regina, Jair Rodrigues, Wilson Simonal, Ronnie Von, Caetano Veloso, Erasmo Carlos, Wanderleia e Rita Lee, entre outros, foram acompanhados e orientados pelas lentes do diretor em seus primeiros passos para a fama.

Ainda na Record, dirigiu Hebe, já rainha dos auditórios, e comandou programas como O Fino da Bossa, Jovem Guarda, Show em Simonal e Bossaudade, sem falar na Família Trapo, com Ronald Golias e Jô Soares, nome que a Record contrataria por insistência sua, como relatou o próprio Jô por ocasião do lançamento de sua “Autobiografia Não Autorizada” (Cia. das Letras), escrita com Matinas Suzuki.

Travesso esteve nos bastidores que propiciaram legados permanentes para a TV, dos festivais de música da TV Record (1966, 67 e 68) aos primeiros videoclipes em que os cantores podiam gravar fora dos estúdios sem medo de perder a sincronização entre o movimento labial e o áudio da canção. Foi Ney Matogrosso, com “América do Sul”, quem inaugurou o singelo experimento do diretor: um radinho de pilhas (frequentemente trocadas ao logo da filmagem) que projetava o som por uma corneta para que o cantor pudesse ouvir e dublar a canção com perfeição.

Estávamos então na década de 1970, já na Globo, e alcançar esse resultado ainda dependia de um comboio para sustentar equipamento de som em gravações externas, tornando a operação cara. Mas Travesso não se conformava em ver Roberto Carlos descendo as curvas da estrada de Santos com um cachimbo na boca à bordo de seu conversível, sem sequer fingir cantar. Veio então a solução da corneta, devidamente autorizada por Boni, chefão da emissora à época.

Da Record à Globo, Travesso acompanhou como poucos a trajetória de Elis Regina, de quem guardava um cartão emoldurado que o seguiu por todas as mesas de trabalho, até ocupar lugar de destaque na estante da sala de casa após a aposentadoria: “Nilton, obrigada por tudo”, dizia o bilhete, escrito pouco antes da morte da cantora, em janeiro de 1982.

Travesso a dirigiu em ocasiões memoráveis, incluindo o videoclipe de “O Bêbado e a Equilibrista”, de João Bosco e Aldir Blanc, com um trilho circular que permitia à câmera trafegar em torno da estrela posicionada no centro de um picadeiro.

No áudio, o acordeón de Caçulinha – outra herança dos idos de Record que o acompanhou em várias outras etapas da carreira, até o programa de Ronnie Von na Gazeta, já neste milênio. Os dois estiveram juntos pela última vez no aniversário de 90 anos de Travesso, um jantar no Clube Paulistano, semanas antes da morte do músico.

Na Globo dos anos 80, o diretor criou nada menos que o TV Mulher, dando à sexóloga Marta Suplicy a oportunidade de falar de sexo às 10h da manhã para uma massa de mulheres que mal sabiam diagnosticar as dores e alegrias do próprio corpo. Era a última gestão do regime militar, com João Batista Figueiredo, e ele colocou em cena até o cartunista Henfil, com seu humor contestatório.

No mesmo programa, fez de Clodovil um prestador de serviços ao ajudar as telespectadoras a se vestirem com bom custo-benefício e dicas para figurinos de festas nobres. Travesso já conhecia o potencial do estilista para as câmeras, com todas as suas controvérsias, desde o tempo em que ele conduzia desfiles no palco de Hebe pela Record.

Foi ainda sob encomenda do diretor que Rita Lee compôs “Cor de Rosa Choque” para o mesmo TV Mulher. A cantora, mais uma que o reverenciava desde os tempos da Record, então pelos Mutantes,  ouviu o briefing da ideia, viajou para Nova York no dia seguinte e ligou de lá, já cantarolando para ele o refrão ao telefone.

Sucesso de público, de audiência e até de acadêmicos que ainda torciam o nariz para a televisão nos anos 1980, o TV Mulherfoi um dos pilares – mas não o único – do Núcleo da Globo de São Paulo, espaço concedido ao comando de Travesso pelo então chefão Boni, atendendo a sucessivos pedidos do diretor que se tornaria um de seus melhores amigos.

Naquela leva de iniciativas, vieram também o Balão Mágico, que lançou Simony e Jairzinho, e o Som Brasil com Rolando Boldrin, cuja sensibilidade Travesso soube respeitar, permitindo que ele fizesse o programa como quisesse.

Em 1990, quando a Globo se recusou a fazer “Pantanal”, novela que afetaria a audiência da Globo de forma inédita desde 1970, era ele o diretor artístico da TV Manchete. Nesse papel, não só endossou a iniciativa de bancar a saga de Juma Marruá, como trouxe da Globo o diretor que soube traduzir a obra de Benedito Ruy Barbosa, Jayme Monardim – a quem Travesso praticamente viu nascer, tendo também dirigido sua mãe, Maysa, em programas e musicais da Record na era de ouro da emissora dos Machado de Carvalho.

Também não é exagero afirmar que foram de Travesso as melhores novelas que o SBT já produziu em sua história, em uma fase iniciada pelo remake de “Éramos Seis” com Irene Ravache, Othon Bastos, Denise Fraga, Osmar Prado, Tarcisinho e grande elenco. Deu-se ali a estreia de Caio Blat, um dos muitos nomes que Travesso colocou em cena ou impulsionou definitivamente para os holofotes.

Com apoio do então diretor artístico do SBT, Luciano Callegari, Travesso obteve de Silvio Santos o aval para um volume de investimentos que poucos profissionais conseguiam do Dono do Baú. Convenceu o empresário a bancar uma cidade cenográfica digna de Globo na então futura sede do canal, na rodovia Anhanguera, e a patrocinar um cursinho de atores para novos talentos, iniciativa que destacava um nome em especial: Ana Paula Arósio, já reconhecidamente aclamada na moda, mas ainda iniciante nas artes dramáticas.

Também foi ele quem apresentou à TV uma certa Maria Fernanda Cândido, ainda pela novela “Serras Azuis”, na Bandeirantes. Atento aos passos do mestre, o pupilo Monjardim a levou em seguida para “Terra Nostra”, na Globo, onde ela aconteceu de vez como a italiana Paola, em par inesquecível com Raul Cortez.

Até Caetano Veloso, que despretensiosamente acompanhava a irmã Maria Bethania em gincanas musicais na antiga Record, foi capturado pelo olhar de Travesso quando ocupou o foco das câmeras pela primeira vez. Ao perceber que o baiano esbanjava conhecimento musical, o diretor o convidou a entrar em cena, fato que segundo o próprio músico o favoreceu no momento em que ele surgiu no palco do Festival de 1967 da Record com sua “Alegria Alegria”. Afinal, ele já não era um completo desconhecido pelo público.

Travesso dirigiu ainda Ana Maria Braga na Globo, posto que abandonou quando Marlene Mattos voltava à emissora com exigências de alcançar 14 pontos de audiência nas manhãs da casa. O diretor fazia o seu melhor e sabia como fazer, mas não era dado a pressões do gênero, muito menos àquela altura da vida, e pediu para sair.

Comandou depois o quarteto do Saia Justa, o mais longevo programa da TV paga no Brasil, em várias formações do grupo, de Mônica Waldvogel a Astrid Fontenelle – outra referência antiga, com quem já havia trabalhado no final dos anos 1980.

A última peformance profissional do diretor foi o fechamento de um ciclo com a família Machado de Carvalho e o amigo Tuta, que morreu há dois anos. “Logo estaremos juntos”, escreveu ele em sua página no Instagram. Travesso voltou ao ninho do clã pela Jovem Pan, onde treinou os primeiros passos de um grande time, na época, para falar e se postar diante de câmeras, ainda na primeira década dos anos 2000.

De quatro anos para cá, acompanhei Travesso por meio de visitas semanais em sua acolhedora casa, ao lado da bela Marilu Torres, temporada em que tive a oportunidade de gravar dezenas de horas em depoimentos sobre essa trajetória que faz dele quase um Forrest Gump da TV. É alguém que esteve à frente dos melhores projetos de cada canal em diferentes tempos da história da TV, tendo passado da TV em preto-branco à TV em cores e alta definição, até a era do streaming.

Desse repertório resultará um livro de memórias idealizado sob o propósito não só de manter sua história viva, mas, especialmente, de referendar para as gerações a seguir a relevância do instinto criativo para a indústria do audiovisual. E referência, nesse universo onde a IA é sigla tão presente, tem um valor inestimável.

 

 

Curta nossa página no Facebook e siga-nos no Twitter

Cristina Padiglione

Cristina Padiglione