Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo

‘Angela Diniz, Assassinada e Condenada’, na HBO, vale cada segundo de tela

Marjorie Estiano se supera como Angela Diniz / Foto: Divulgação

Em cartaz na HBO, a série “Angela Diniz, Assassinada e Condenada”, vale cada segundo do tempo ali consumido por quem puder sintonizar a produção.

Com direção de Andrucha Waddington e roteiro de Elena Soarez, a série faz escolhas acertadas nos recortes e na montagem que narram o terrível episódio inspirado na vida real da chamada Pantera de Minas, Angela Diniz. Cada um dos seis episódios tem início com um trecho do julgamento, onde se destaca com primor a presença de Antonio Fagundes no papel do advogado Evandro Lins e Silva, que conquistou a liberdade para o assassino, Doca Street, companheiro de Angela.

O caso Angela Diniz se tornou forte referência para a luta contra o feminicídio no Brasil e para a mudança da legislação – ainda que tardiamente – justamente em função dessa decisão. Nas palavras de Lins e Silva, Doca matou por “legítima defesa da honra”, transformando a vítima em culpada.

Ao contrário do filme de Hugo Prata sobre a mesma personagem, lançado em 2023 com Isis Valverde e Gabriel Braga Nunes, a série explora com precisão as frases e as tensões do julgamento. Apesar da boa performance dos atores e da semelhança entre Doca e Nunes, o longa-metragem “Angela” encerra a produção após o  assassinato dela, sem espaço para os absurdos do julgamento.

A série é baseada no podcast Praia dos Ossos, que refaz a trajetória de Angela e toda a comoção do tribunal. Na adaptação  para a tela, optou-se por fazê-la mãe de uma única filha, em vez dos três herdeiros da vida real.

Marjorie Estiano só endossa sua capacidade camaleônica para interpretar seja quem for, do riso ao drama, de modo que a gente às vezes até esquece quem está por trás da personagem e embarca na fantasia lindamente proposta por ela.

Que atriz, senhoras e senhores. Absurda!

No quesito interpretação, Waddington mostra a força da direção ao equalizar as performances de todo o elenco. Sim, Marjorie é gigantesca, mas todos dialogam no mesmo nível. Ninguém dá vexame nem perde o bonde, cada um na função que lhe cabe – do marido (Thelmo Fernandes) à mãe (Yara de Novaes), das amigas (Camila Márdila e Renata Gaspar) ao assassino (Emílio Dantas), da filha ao colunista social (Ibrahim Sued, vivido por Thiago Lacerda) ou ao advogado da vítima (Emílio de Mello).

Revista hoje, a tragédia de Angela Diniz suscita um zilhão de reflexões sobre o que poderíamos ter feito e ainda não fizemos no escopo da violência contra a mulher, da legislação que criminaliza atos ao letramento de meninas e (principalmente) de meninos a respeito do assunto.

O texto, a fotografia, o figurino, os cenários, a performance do elenco e as escolhas de ângulos e montagem só favorecem a obra final, alinhavada com o impacto que o tema merece, mas também com a necessária delicadeza.

 

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Cristina Padiglione

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