‘Vale Tudo’: interesse de Odete Roitman em se aliar a Maria de Fátima é maior que racismo, crê autora

Um dos pontos nevrálgicos da releitura de “Vale Tudo” diz respeito ao racismo e à segregação recorrentemente manifestados pela vilã, Odete Roitman, agora vivida por Débora Bloch. Como aquela mulher que o país conheceu na voz de Beatriz Segall, que odeia o Brasil e sua “gentinha”, fervorosa defensora da branquitude europeia, manipularia o filho, Afonso, para se casar com uma moça negra como a atual Maria de Fátima, interpretada por Bella Campos? A Odete que conhecemos, afinal, jamais faria gosto em ter um neto ou neta de pele preta.
Não seria um paradoxo? Para a autora do remake, Manuela Dias, não.
Segundo ela, Odete se identifica com Maria de Fátima e se vê muito nela, moça ambiciosa que há de ganhar o apoio da vilã para conseguir um bom casamento com o filho dela, Afonso, personagem de Huberto Carrão, que foi de Cássio Gabus Mendes na versão original, em 1988.
“Acho que a Odete é um personagem tão pragmático e tão conectado com o que funciona pra ela, que isso é maior que tudo. Pra ela, serve quem está a serviço dela para executar a agenda dela. A Maria de Fátima é perfeita”, argumenta Dias. “Tanto na versão original como nessa, ela [Odete] tem um processo de identificação muito forte com a Maria de Fátima e a grande decepção dela vai ser lá na frente, quando ela descobre tudo. É a hora que a Odete chora, a hora que ela desmonta. Ela fala muito: ‘Você me lembra eu mesma quando eu era jovem’.”
Manu Dias se manifestou sobre o assunto durante uma entrevista coletiva virtual promovida pela Globo na manhã desta terça-feira, 25, quando respondeu também sobre a evidente ampliação do número de atores negros na nova versão.
“Naquela época só tinha dois atores pretos na novela, e nosso olhar era tão deformado pelo racismo estrutural, que era difícil até ver. Hoje em dia a gente consegue ver e nomear. Existe um avanço.”
Para ela, Raquel, heroína da trama, vivida por Regina Duarte em 88 e agora por Taís Araújo, “sempre foi preta”. “Ela era branca pela nossa incapacidade social naquele momento de perceber e dar esse protagonismo também para uma atriz preta, o que era difícil naquele momento. E que bom que a gente cada vez mais consegue lutar por essa construção que tem que acontecer em todos os âmbitos”, acredita.
Outro ponto que ganhará atualização na releitura da novela de Gilberto Braga, Aguinaldo Silva e Leonor Bassères é a visão sobre o machismo. Mesmo sequências que na versão original aconteciam em tom de chacota, como Poliana (Pedro Paulo Rangel) dizer a Alaíde (Lilia Cabral) “eu vou dar na sua cara”, não serão aceitas. “A questão da agressão à mulher em 88 é totalmente normalizada e que bom que hoje em dia a gente estranha e é capaz de ver o que está acontecendo”, concluiu Manu, autora que aposta no entretenimento como fator de transformação social.
A direção-geral está a cargo de Paulo Silvestrini e a estreia está marcada para 31 de março, na vaga de “Mania de Você”, de João Emanuel Carneiro.
Nesta segunda, 24 de fevereiro, a Globo levou ao ar o primeiro trailer de “Vale Tudo” (confira abaixo). Quase 40 anos após a exibição original, a novela é considerada um dos melhores folhetins produzidas pela emissora, partindo do mote “vale a pena ser honesto no Brasil?”, proposto por Gilberto Braga. O remake entra em cena agora embarcado também no pacote de celebrações pelos 60 anos da Globo, a se completarem em abril.
O elenco inclui ainda Antonio Pitanga (pai de Raquel), Julio Almeida (Rubinho, pai de Fátima – Daniel Filho no original), Renato Góes (como Ivan, papel de Antonio Fagundes em 88), Alexandre Nero (Marco Aurélio, feito por Reginaldo Faria antes), Paolla Oliveira (Heleninha Roitman, icônica personagem de Renata Sorrah no original), Cauã Reymond (César, cafajeste notabilizado por Carlos Alberto Ricelli), Belize Pombal (a secretária Consuelo, que foi de Rosane Gofman em 88), Maeve Jinkings e Lorena Lima (como o casal gay Cecília e Laís, vividas por Lala Deheinzelin e Christina Prochaska), Alice Wegmann (Solange Duprat, memorável papel de Lídia Brondi), Karine Telles (Alaíde, vivida por Lilia Cabral em 88), Malu Galli (tia Celina, papel de Natalia Timberg no original) e Luís Salém, o adorável mordomo Eugênio, que foi de Sérgio Mamberti no original e virou personagem no antigo Twitter na primeira reprise de “Vale Tudo” pelo canal Viva, em 2010.