Por Cristina Padiglione | Saiba mais
Cristina Padiglione, ou Padi, é paga para ver TV desde 1990, da Folha da Tarde ao Estadão, passando por Jornal da Tarde e Folha de S.Paulo

Globo honra soberania na TV brasileira ao unir herdeiros de Gugu e Faustão

João Silva e João Liberato cantam 'Meu Pintinho Amarelinho' no encerramento do Domingão com Huck: cena antológica / Reprodução Globoplay

O encontro entre os Joões – João Liberato e João Silva, filhos de Gugu Liberato e Fausto Silva, respectivamente – no Domingão com Huck deste domingo (7/10) foi sobretudo um tributo à história da TV brasileira, mas também uma demonstração da soberania da Globo na trajetória da indústria da TV no Brasil.

Sob o pretexto de se enfrentarem em uma competição na Batalha do Lip Synk, os meninos personificaram a memória do Domingão do Faustão e do Domingo Legal com Gugu, programas que ocuparam páginas e páginas de jornais e revistas nos anos 1990 em meio à acirrada competição de audiência mensurada então pelo Ibope.

Há poucas semanas, vimos também no Domingão com Huck a performance de Tiago Abravanel em homenagem ao avô, Silvio Santos, que por mais de uma década, desde que deixou a Globo, em 1976, foi uma pedra no sapato de Roberto Marinho, impedindo que a emissora, então já líder de audiência, endossasse tal condição aos domingos, que sempre foram de Senor Abravanel. Foi Fausto Silva quem conseguiu interromper esse reinado do Baú.

Mas bem antes de Abravanel e dos Joões, aquele mesmo palco do Huck deu espaço também a um revival de “Carrossel”, sucesso do SBT, com Larissa Manoela.

O encontro do João de Gugu com o João do Faustão, no entanto, supera tudo em matéria de elegância com ex-contratados e ex-concorrentes, de modo que se acentuam os contrastes com um passado não tão longínquo que consagrou a Globo como canal pouco disposto a dar palco para qualquer menção à concorrência.

Além do legado dos pais, João Silva e João Liberato se encontram diante das câmeras remetendo à morte precoce do ex-apresentador do SBT (e da Record), e à sobrevida recém-conquistada por Fausto Silva, graças a um transplante de coração.

João Liberato, alvo de tantas publicações em razão de uma suposta rivalidade com a mãe em função de discórdias familiares sobre a herança do pai, declarou-se a Rose Miriam, que também disse amar o filho em rede nacional. Foi a primeira troca de afeto testemunhada entre os dois diante dos holofotes após a morte de Gugu, em novembro de 2019.

Da parte de João Silva, sua presença no palco de Huck absolveu a Globo de ter aparentado alguma deselegância com Fausto Silva na ocasião de sua saída abrupta do ar, em junho de 2021, após ele ter confirmado publicamente que voltaria para a Band no ano seguinte.

Huck fez mais. Enalteceu Gugu e Faustão pelo legado dos dois, referências para ele ser quem é hoje, e tratou com a naturalidade que poucos conseguiriam admitir que todo apresentador tem “ciúmes” do palco que construiu: “Eu tinha ciúme do Caldeirão, como obviamente o Fausto tem ciúme do Domingão, porque a gente se apega, e isso aqui foi uma construção dele durante 33 anos.”

Esse é um posicionamento claramente pessoal, não mais da Globo, que dá ao atual titular do Domingão todas as credenciais para ocupar espaço tão nobre. Se alguém ainda tinha alguma dúvida do potencial de Huck para o tão cobiçado comando dos domingos, a perfomance deste 7 de outubro, associada a um conjunto de obra que vem sendo construída desde setembro de 2021, não deixa dúvidas que ele não está lá à toa e é digno de todos os aplausos que conferem liderança folgada ao Domingão.

Em meio a tantas transformações de comportamento trazidas por múltiplas telas, não tem sido tarefa simples manter-se em 1º lugar, e há que se reconhecer, evidentemente, os esforços e boas sacadas do que se chama de trabalho em equipe, e que equipe, azeitando um programa muito e muito bom, sob o comando de Hélio Vargas.

Parênteses: só para endossar que Vargas entende muito do que faz, posso contar que o conheci quando ele era diretor do programa da Hebe Camargo, no SBT, ainda realizado no Teatro Silvio Santos, à Av. General Ataliba Leonel, no bairro do Carandiru. Antes de chegar à Globo e de se juntar a Huck ainda no Caldeirão, foi executivo do alto escalão na Record e na Band.

Por falar na rede dos Saad, Huck poderia ter juntado os garotos e feito todas as honras a que assistimos, sem mencionar que João Silva em breve estreará um programa na Band. Mas não se fez de rogado. Desejou boa sorte ao filho de Faustão no comando das noites de sábado, horário que já coube a Fausto nos idos do Perdidos na Noite, e arrematou seu discurso ao chamar a Band de “casa maravilhosa”, lembrando que foi lá que ele, Huck, se fez apresentador de fato.

DIAS PASSADOS

Houve um tempo em que era proibido falar da concorrência na tela da Globo, a não ser em ocasiões muito excepcionais, como o cinquetenáio da TV no Brasil (quando Gugu pisou nos Estúdios Globo para um especial), o sequestro de alguém como Silvio Santos (2001) ou a morte de alguém famoso de outro canal, como vimos ocorrer com as despedidas de Hebe, Gugu e Ricardo Boechat (que também passou pela Globo).

Quando Hebe Camargo sentou na poltrona de Jô Soares, já na Globo, e foi homenageada por Fausto Silva, anos mais tarde, os episódios foram tratados como acontecimentos excepionais, dignos de uma figura tão ímpar como Hebe. A loira também conseguiu façanhas que outros apresentadores da concorrência não alcançavam, como ter Xuxa, então estrela na Globo, em seu palco, e ganhar aval para entrevista exclusiva com Roberto Carlos.

E não é que a Globo não tenha mudado pouco a pouco nos últimos anos.  Vamos lembrar que o humorístico “Tá no Ar” quebrou paradigmas ao botar Marcelo Adnet imitando Silvio Santos na tela do plim plim, ainda em 2013, mas as permissões para mencionar a concorrência ficaram bem mais restritas à seara do humor de lá para cá – ou até o momento em que a Globo teve programa de humor.

Convém reparar que Xuxa passou a ser menção vetada pela Globo depois de assinar com a Record, em 2015, e só voltaria a ser mencionada em um especial de humor, A Gente Riu Assim, com direito a celebração de Dani Calabresa pela conquista de falar da loira na tela da emissora.  Mas aí, para além da tradição da Globo em evitar mencionar a concorrência, pesa também o nome do adversário. É claro que as relações com a TV de Edir Macedo seguem mais tumultuadas, mas houve um tempo em que a Globo era absolutamente hostil ao SBT.

Depois de Huck abrir espaço para homenagens a “Carrossel”, Silvio Santos e Gugu, já há quem aposte, em tom de piada, que a Globo estaria comprando o SBT. Mas convém avisar: não há qualquer movimento nesse sentido.

Apenas e tão somente existe a percepção, ainda que tardia, de que uma empresa líder não deve se mostrar tão temerosa de mencionar o segundo ou o terceiro lugar de um ranking que ela domina há décadas.

 

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Cristina Padiglione

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